“Brasil 200” de Flávio Rocha leva mais de 1.500 pessoas ao Teatro Riachuelo

Segundo ele, RN já perdeu mais de 20 empresas nos últimos anos e todo empresário que conhece tem história para contar do autoritarismo estatal, que mais se serve do que serve ao País

José Aldenir/ Agora Imagens Evento "Brasil 200"

Marcelo Hollanda

Saiu decepcionado quem esperava encontrar um Flávio Rocha pregando candidaturas e maior participação dos empresários nas eleições deste ano. Definitivamente, não foi o seu discurso. Ou, como ele mesmo fez questão de deixar claro, “o Brasil 200 não é um movimento empresarial”.

Durante seu lançamento, nesta quarta-feira. 21, fim de tarde e começo de noite, no Teatro Riachuelo, o CEO do grupo que leva o mesmo nome, deixou claro o objetivo da sua pregação pelo país: tirar do imobilismo aqueles que “puxam a carruagem”.

Ou seja, “a imensa maioria da população brasileira que paga conta, sua a camisa, investe, empreende, acredita no Brasil e financia um Estado que já extrapolou de todos os controles e proporções”.

Ele se referia ao fato do Estado brasileiro ter atingido inacreditáveis 37% de extração tributária, o que é um recode entre todos os países emergentes. E, apesar disso, “sermos obrigados a engolir os monopólios estatais que vendem a preços recordes os produtos essenciais, como gasolina e correios”, para ficar só nesses dois exemplos.

Simbólica comemoração antecipada das duas décadas de libertação do Brasil da Coroa Portuguesa, que acontecerá só em 2022, quando o futuro presidente eleito este ano deixar o cargo, Rocha definiu o movimento como um libelo a favor de um Estado mínimo, mais preocupado em servir à população do que intervir da economia do país.

Incomodado com o fato do Rio Grande do Norte já ter perdido mais de 20 empresas nos últimos anos e pertencer a uma nação ranqueada como a 153ª menos competitivas do mundo, ao lado da Venezuela e a Coreia do Norte, Flávio Rocha deu a entender que já não há mais espaço para “empresários carrapatos”, que engordam e se criam no gigantismo do Estado.

É claro que, durante entrevista coletiva que antecedeu o lançamento oficial do movimento, que aconteceria logo depois para uma plateia de 1.500 pessoas, ele foi confrontado por perguntas do tipo:”Por que isso agora, já que o grupo empresarial que representa se beneficiou de inserção fiscal no estado desde 1959.E que, entre 2009 a 2016, recebeu do BNDES, R$ 1,4 bilhão?

Flávio não se abalou: “Pelo que você diz, um estudante liberal não pode estudar na UFRN e, da mesma forma, eu, que sou um liberal, não posso usar uma estrada para ir até o aeroporto”. E emendou: “O que eu estou dizendo é que não devem existir esses mecanismos de deformação”.

Lembrou que no período Lula/Dilma, “o governo chegou a arrogância de olhar para uma pessoa e dizer: você vai ser o campeão da proteína animal” – numa clara alusão ao império dos irmãos Batista, da Friboi, que deixaram de ser simples açougueiros e em poucos anos se transformaram nos maiores processadores de carne do mundo. “E você vai ser o campeão do óleo e gás – alusão, deste vez, ao empresário Eike Batista, nos governos Lula-Dilma se transformou num dos homens mais ricos do planeta. Ou Marcelo Odebrecht, que foi alçado a condição de principal nome da construção pesada.

Para ele, entre o BNDES, criado pelo liberal Roberto Campos, ex-Ministro do Planejamento no governo Castelo Branco, e o BNDES dos governos petistas, que repassaram bilhões de dólares à ditaduras bolivarianas que jamais serão recuperados, vai uma grande distância.

Neste ponto, Flávio estabelece uma evolução entre o incentivo fiscal, concebido para eliminar discrepâncias regionais, e os saídos, por exemplo, da antiga Sudene, que concedia incentivos diretos, financiando primeiro o dinheiro para a construção do galpão e, numa segunda visita do empresário, os recursos para que ele viajasse para a Europa afim de adquirir os equipamentos.

“A diferença aqui é que o incentivo fiscal foi uma evolução na medida em que se o empresário dá empregos, o incentivo é dado; não forneceu, ele desaparece”, lembrou. Mesmo assim, chegou a conclusão que diante do gigantismo e ineficiência do Estado brasileiro, hoje, seria melhor que o BNDES nem existisse.

É claro que não faltaram perguntas sobre a multa milionária do Ministério Público do Trabalho contra a Guararapes, envolvendo o projeto Pró Sertão, programa de incentivo à geração de empregos no semi-árido do Rio Grande do Norte, criado pela Secretaria de Desenvolvimento Econômico do estado em 2013 . Sobre isso, Flávio Rocha atualizou o seguinte:

“O Pró Sertão não é representativo diante do tamanho da Riachuelo, mas é a minha missão de vida. É prova de como a indústria têxtil pode mudar um país, como mudou a Coreia do Sul, como mudou o Japão. Não existe uma sociedade hoje rica que não tenha passado por uma etapa têxtil. E eu vi que isto poderia acontecer no Rio Grande do Norte. Como aconteceu na Galícia (Espanha): a descentralização da costura, onde 5% da cadeia é capaz de gerar 80% dos empregos. Oficinas pequenas, de não mais de 50 funcionários. E uma oficina dessas transforma uma cidade de 10, 15 mil habitantes”.

Mas a partir do momento em que começou a ser vitima das incursões dos fiscais e viu tudo ruir, confessa que fez algo irresponsável: começou a falar a todo mundo sobre o “horror” que, como empresário, estava vivendo. A resposta foi imediata: outros empresários também começaram a contar suas histórias. “E não havia um que não tivesse uma história pra contar igual ou pior de opressão do Estado”. E conclui: “Foi assim que nasceu o Brasil 200”.

Lembrou que o RN já chegou a responder por 90% de toda a produção da Guararapes “porque o seu Nevaldo (pai de Flávio) insistia que antes de comprar qualquer insumo ou trabalho em qualquer outro lugar era preciso comprar aqui.

“Tínhamos 20 mil funcionários até que esse esquema (do Ministério Público do Trabalho) começou a nos cercar. Com isso, enquanto a Riachuelo (rede de varejo) cresceu cinco vezes. a Guararapes encolheu proporcionalmente de tamanho.

Ainda sobre o processo movido pelo Ministério Público do Trabalho, o empresário desabafou: .”Fomos autuados sem que nenhum artigo da Lei fosse apontado para isso. Fomos autuados por danos morais e ainda tiraram uma tese exôtica do bolso: subordinação estrutural, levando a R$ 38 milhões de multa!”, ironizou. “É como chegar no ABC de São Paulo, na Ford e dizer: vocês agora têm que apresentar todas as carteiras de trabalho de seus fornecedores, da Cofap, da Pirelli, da Santa Maria que vende os vidros. Não comove essa gente que aqueles trabalhadores fiquem sem emprego”. E concluiu: “Poderíamos já ter feito como a Coteminas ou a Alpargatas e ir embora. Mas, como eu já disse, seu Nevaldo é apaixonado por esta terra”.

Pouco antes, perguntado porque resolveu criar o movimento Brasil 200, Flávio lembrou um episódio ocorrido quando ainda criança, ao perguntar ao pai, numa visita a um circo em Natal, por que o elefante de algumas toneladas se resignava a se manter preso por uma corda a uma estaca da qual poderia se desfazer facilmente. “É porque ele foi criado desde pequenininho preso à estaca, filho”, respondeu Nevaldo.

Sobre quem financia o movimento Brasil 200, ele fez muitos rirem: “Por enquanto, eu”.