Marqueteiro reafirma que Lula sabia de caixa 2, mas não negociou com ele

Santana (de óculos) e Mônica Moura (de óculos escuros) após serem soltos, em 2016

O marqueteiro João Santana reafirmou nesta segunda-feira (5), em depoimento ao juiz Sergio Moro, que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tinha conhecimento da existência de pagamentos em caixa 2 pelos serviços prestados na campanha do petista à reeleição, em 2006. O marqueteiro já havia abordado o assunto em seu acordo de delação premiada, firmado no ano passado.

Santana prestou depoimento como testemunha de acusação no chamado processo do sítio de Atibaia (SP), da Operação Lava Jato, em que Lula é acusado de ter recebido propina das construtoras Odebrecht, OAS e Schahin por meio de reformas no imóvel. O MPF (Ministério Público Federal) também diz que o ex-presidente comandou a formação de um esquema criminoso destinado, entre outras coisas, ao seu enriquecimento ilícito e a "financiar caras campanhas eleitorais".

A defesa de Lula diz que não há elementos que permitam cogitar a participação do petista nos crimes indicados. Os advogados também negam que o ex-presidente seja o real dono do sítio de Atibaia.

Em seu depoimento, Santana afirmou que nunca tratou com Lula sobre valores ou formas de pagamento de serviços da campanha. No entanto, contou que "duas ou três vezes", inclusive depois da eleição, reclamou diretamente com o ex-presidente sobre atrasos nos pagamentos.
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"Eu deduzia que ele sabia exatamente do que estava se tratando", disse. "Primeiro, uma coisa genérica: eu não conheci nenhum candidato que não soubesse dos detalhes da administração financeira da sua campanha. Segundo: os pagamentos oficiais sempre tiveram margem pequena de atraso. Sempre tinha atraso, mas não tanto. Então, quando se referia a atrasos, atrasos inclusive que ficavam para depois da campanha, estava implícito que era caixa 2."

Santana não falou sobre o sítio de Atibaia, assim como as duas outras testemunhas de acusação que prestaram depoimento nesta segunda: a mulher e sócia de Santana, Mônica Moura; e Eduardo Musa, ex-executivo da área internacional da Petrobras.
Empresária reitera caixa 2 pago pela Odebrecht

Mônica Moura também tem acordo de delação premiada. A Moro, ela reiterou que a empresa do casal recebeu dinheiro da Odebrecht no exterior como parte do pagamento pelos serviços prestados na campanha de Lula em 2006. Os recursos, na casa dos milhões de reais, não foram declarados às autoridades --ou seja, são considerados caixa 2.

Segundo Mônica, cerca de metade dos recursos usados na campanha de Lula naquele ano foram pagos por meio de caixa 2. Ela estimou o valor total da campanha em "mais ou menos R$ 18 milhões a R$ 20 milhões", sendo que aproximadamente R$ 10 milhões desta quantia foram pagos via caixa 2. 

O casal também voltou a dizer que nunca tratou de valores e formas de pagamento com Lula; segundo eles, estes assuntos ficavam a cargo do ex-ministro Antonio Palocci e do ex-tesoureiro do PT João Vaccari Neto.

Santana, Mônica, Palocci e Vaccari, entre outros, foram condenados por Moro em um mesmo processo da Lava Jato sobre pagamentos feitos pela Odebrecht a campanhas eleitorais do PT e outras de interesse do partido no exterior.

Assim como os marqueteiros, Eduardo Musa reiterou o que declarou em seu acordo de colaboração premiada. Musa disse ter sido informado que o pecuarista José Carlos Bumlai intermediaria um empréstimo milionário do Banco Schahin ao PT, para saldar dívidas do partido. Em contrapartida, a construtora Schahin, dos mesmos donos, ganharia um contrato bilionário com a Petrobras.

A contratação da Schahin aconteceria apesar de, segundo o ex-executivo da estatal, haver outras empresas mais capacitadas para a tarefa em questão, o uso de um navio-sonda para a exploração de petróleo em águas profundas.

Bumlai já foi condenado em um processo da Lava Jato especificamente sobre o empréstimo fraudulento. No processo do sítio, o pecuarista é acusado de ter pagado reformas no imóvel com recursos do esquema com a Schahin.

Segundo Cristiano Zanin Martins, advogado de Lula, os depoimentos "deixaram claro" que a acusação do MPF é "manifestamente improcedente". Para Zanin Martins, "a denúncia faz referência a 9 contratos da Petrobras e a reformas realizadas em um sítio em Atibaia. Nenhuma das testemunhas hoje ouvidas confirmou a acusação".

UOL